segunda-feira, 30 de janeiro de 2012


Intimidade entre estranhos

Tu abres a porta de fora
Os cachorros sentem que tu chegas
Um presságio em mim pede para eu pegar na vassoura e parar de ver o desenho animado de que tanto gosto.
Tu me sorris friamente e eu tenho a noção
de que aquele sorriso foi mais quente.
Mais quente que o sol do verão do Brasil.
Tu sentas calado, quedo
e dentro de mim, esqueço-me de que
um dia tu falastes tanto de ti
que até me estafei

Antes bebíamos juntos…
Hoje embebedo-me sozinha
Antigamente, tu elogiavas a minha comida
e eu a fazia com mais apreço.
Hoje comemos a comida fria,
como a dobrada fria que Álvaro de Campos em tempos comera
ao revisitar Lisboa.
Tu? Será que tu revisitas o meu coração ainda?

Tenho saudades das tuas lembranças
e horror do teu presente
É honrado o teu passado
e terroroso o teu instante, neste instante…

Tu perfuras como um prego enferrujado as minhas entranhas
Despenso-te,
pois tenho medo do tétano!
Já me basta a paralisia infantil de não saber mais amar!

A cama é um gelo
Teus pés, dois cubos enormes
mas se derretem na madrugada
no meu corpo quente de desejo
Mas não pelo teu!

Tu tomas banho
Eu escuto o cair das águas
e imagino-me no meio da chuva, solitária,
longe dalí!

Oh, Dalí!
Quem sabe tu estarias bem mais perto de mim!
Quem sabe, a tua surrealidade
estaria bem mais perto
do que a dura realidade
dessa intimidade entre estranhos!

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