Capítulo I
Oxum e Xangô
Oxum e Xangô
Oxum estava na beira do rio a pentear os seus longos cabelos negros e enrolados com as suas longas unhas. As águas prateadas serviam-lhe de espelho e o barulho da cachoeira fazia o seu corpo balançar por sobre a pedra lodeosa. Oxum levantou-se da pedra e dourou-se no sol. Seus olhos eram esplendorosamente da cor do mel. Os beija-flores que avistavam as suas pupilas, tentavam chegar mais perto do seu olhar confundindo-o com o miolo das flores.
Oxum era a rainha da beleza e da sensualidade. Era a deusa do amor. Todos os homens gostavam de estar perto dela por que ela era divertida e inteligente. Mas Oxum só tinha olhos para seu marido Xangô, homem temido e respeitável, porém justiceiro e tão vaidoso quanto a sua esposa.
Toda manhã ela tomava banho nua na cachoeira e depois Xangô aparecia para espiá-la. E como era bonito de ser ver aquele corpo negro se misturando no véu da cachoeira. Era como se ela fosse noiva todos os dias e o seu casamento e a sua vida se renovasse através das águas doces que desciam das entranhas das pedras.
Xangô saiu por detrás dos arbustos e pulou nas águas como se uma flecha fosse. Oxum olhou para as águas já sorrindo. Parecia que ela tinha arrancado todas as pérolas do mar e feito-as morar na sua boca escura.
Xangô saiu do profundo do rio e agarrou as pernas de Oxum com toda a força que tinha no seu amor:
- Quero te dar um filho, Oxum. E ele será tão forte como o pai!
Oxum abriu as suas longas pernas e o seu sexo humidecido, parecia a cachoeira em que há minutos atrás tomara banho.
-Venha meu nêgo! Me dá então mais esta felicidade!
- Sabes bem que para mim nunca haverá esposa como você.
- Nem Oyá? – perguntou a bela mulher
- Ela foi a minha primeira esposa, mas você é quem é a primeira no meu coração. Quero te dar um filho antes de partir para a guerra.
Oxum demonstrou-se preocupada:
- Você acha que haverá guerra?
Xangô olhou no fundo dos olhos apaixonados de sua mulata e confortou-a:
-Eu só estou preparado para o que der e vier. Você sabe bem que se ouver alguma guerra não posso me curvar. E cada Orixá tem o seu destino. Nós dois sabemos que mais cedo ou mais tarde...
Oxum abraçou o seu esposo e concluiu:
- Só espero que seja tarde.
Xangô entrou dentro dela com voraz apetite e devorou dela todo o seu desejo. Tirou da mulher todas as suas forças e no fim deixou-a gozar o seu cançasso na beira do rio onde o suor se misturava com a nescente.
De noitinha, a comida estava pronta. O peixe estava coberto pelas folhas de bananeira que ela mesma colheu e escolheu. O peixe era o que o seu homem pescara de tardezinha.
Ninguém cozinha como Oxúm! – elogiou o guerreiro satisfeito.
Oyá, também nomeada por Iansã por seu também esposo Xangô, olhava o marido com o rabo dos olhos.
-Hoje é noite de Iansã, Xangô!- replicou Oyá
Oxum olhou nos olhos de Xangô para ver a resposta do marido:
- Xangô tem cançasso no corpo. Hoje eu durmo na rede com o bater do sereno no corpo – disse ele
Iansã baixou a cabeça e Oxum sorriu para as pulseiras douradas que usava, como se a beleza delas rissem sozinhas para ela e caçoassem da pobre Oyá.
De madrugadinha, Oxun foi até a rede em que o marido estava e colocando de lado a sua machadinha, amou-lhe uma vez mais, serenando o seu corpo cansado e destruíndo-lhe todas as forças que lhe imperavam. Ele então balbuciou:
- Só por ti, minha querida Oxum, eu perderia a minha bela cabeça de guerreiro. Só você, oh, minha bela mulata, sem arma nenhuma, pode me desarmar desalmadamente...
E assim, entregues ao amor e a desconfiança da primeira esposa, eles dormiram na grossa e aconchegante rede da grande varanda amparada pela noite calma e pelo extenso quintal da propriedade.
(Quando os Orixás pisavam a Terra, autora Marcella Reis/ Pinturas Nide Bacelar)



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