terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Capítulo III
Rosa Caveira do Cruzeiro

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 Parte 1
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O pedido de Oyá



     Iansã estava disposta a reconquistar a atenção de seu marido Xangô. Passando pela cozinha viu Oxum que com certa desconfiança perguntou a guerreira a onde esta iria.
     -Vou para a floresta caçar. Os ventos me assopram que há um javali bem grande a percorrer pelas folhagens. – respondeu Iansã um pouco desconcertada. Porém Oxum acreditou, pois sabia que Oyá era uma das melhores caçadoras de toda aquela região.
   Era quase tardezinha, hora em que o sol ficava mais pleno e laranja em toda a sua vida diurna. Oyá caminhou bastante, mas não foi para os lados da floresta. Com o seu cavalo galopou rumo as terras abastadas que pertenciam a um pedaço esquecido da vila Aruanda.
     Desceu do seu cavalo que tinha a cor da crina laranja do sol desta tarde quente e abrisada.
     -É aqui - disse tendo a certeza de que se tratava da fazenda em que Rosa Caveira morava.
     O lugar estava seco, mal tratado. No terreiro havia montes de galinhas pretas a ciscarem o chão repleto do nada. Havia um poço que cheirava a enxofre e do lado o casebre gasto e encardido. Em cima dele uma chaminé improvisada a soltar com a fumaça o cheiro de um monte de ervas misturadas.
     A porta do casebre abriu-se e revelou por detrás da grosseira e descascada porta de madeira uma mulher alta e muito magra com os cabelos loiros a escorrerem-lhe pela cintura.
     -Ora, ora, se não é a senhora das tardes...
     Iansã olhou-a corajosa.
     -Já esperava pela sua visita cabocla.
     - Trouxe vinho e este ramalhete de rosas amarelas.
     -Cigarro?
     -Também – disse-lhe entregando um maço de cigarros.
     As duas se analisaram. Oyá achou a moça muito magra. As maçãs do rosto afundavam-se para dentro, e o olhar grande e amarelado dela se perdia no meio da face triste, mas não desmazelada. Rosa Caveira usava um vestido negro e vermelho, carmim nos lábios e um forte risco negro nos olhos. As unhas eram grandes e pintadas de vermelho sangue. O cabelo era bem tratado como um tecido fino de seda. Rosa Caveira achou Oyá uma lástima, uma bela e mágica lástima.  O sol fazia o cabelo de Oyá ficar da cor de um pôr de sol e o vento bonito balançava os trapos que a deusa da tarde usava e ela também ficava bonita
     -Rosa Caveira do Cruzeiro... Eu quero acabar com a Oxum!
     - Veja bem... Oyá, eu não posso acabar com ninguém. Principalmente com alguém tão poderoso e caprichoso como Oxum. – disse enquanto acendia um cigarro.
     - Não pode?- perguntou Oyá
     - Nega bonita e dengosa está ali... Mulata forte, destemida, amada...
     - Eu não vim aqui para ouvir outra pessoa fazer elogios à minha rival!
     - Quanta raiva, senhora das tardes...- disse em tom de ironia. Abriu o vinho com a força das unhas empurrando assim a rolha para dentro e beijou a boca da garrafa.
     - Vou te contar uma história menina...  Eu nasci num lindo dia de primavera, num jardim muito grande de rosas vermelhas e amarelas.  Neste jardim estão enterrados todos os meus antepassados. E, bem,o parto foi muito difícil. Minha mãe pensou que ambas iríamos morrer. Foi quando uma caveira saiu de baixo da terra e ajudou a minha mãe a dar à luz.
     Oyá olhava para Rosa com incrédula fé, de olhos grandes e esbugalhados.
     -Ela me tirou de dentro do ventre da minha mãe e a minha mãe com a única força que lhe restava arrancou do chão um molho de rosas amarelas e botou no peito da caveira.
      “ Sei que és tu, minha mãe. Tu saístes do teu sono eterno e pedistes ordem a Omolú para que em morte te trouxesse para vida só para ajudar a mim e a tua neta. Eu batizo esta criança de Rosa, para lembrar este campo santo repleto de flores vermelhas e amarelas e de nossos antepassados. Caveira, forma como tu vistes nos aviar socorro. Cruzeiro porque é aqui que se cruzam todas as almas e pela  tua bondosa alma ter -se cruzado com as nossas neste momento oportuno. Eu a batizo de Rosa Caveira do Cruzeiro”
    Rosa falava esta palavras enquanto estava num transe profundo.Oyá olhava a mulher e via na suas pupilas amarelas uma cruz à sombra de uma caveira.

( "Quando os Orixás pisavam a Terra" escrito por Marcella Reis/ Pinturas Nide Bacelar)










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